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Guatemala: Caso Água Caliente avança

Agua Caliente, uma comunidade maia Q'eqchi' na Guatemala, está um passo mais perto de ter seu caso analisado por um órgão internacional de direitos humanos. Em fevereiro de 2015, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos transferiu a petição de Agua Caliente para a Guatemala e estabeleceu um prazo de três meses para o recebimento de sua resposta. A medida da Comissão deu início formalmente à primeira fase do procedimento, durante a qual os requisitos de admissibilidade da petição serão amplamente discutidos.

“Em termos processuais, este é um grande passo adiante”, afirmou Leonardo A. Crippa, advogado sênior do Centro. A fase de admissibilidade marca o início de uma discussão jurídica considerável entre o governo da Guatemala e o Centro, que atua como consultor jurídico representando Agua Caliente na esfera internacional. O mérito do caso será abordado na segunda fase do processo.

Por mais de 40 anos, Agua Caliente tem utilizado meios legais para garantir o reconhecimento de seus direitos territoriais, enfrentando sérias ameaças e violações de seus direitos humanos, incluindo inúmeras tentativas de expulsão da comunidade de suas terras tradicionais para dar lugar à mineração de níquel. A comunidade de Agua Caliente nunca recorreu a protestos ou bloqueios de estradas para reivindicar seus direitos.

Em fevereiro de 2011, Agua Caliente obteve uma importante vitória quando uma decisão histórica do Tribunal Constitucional da Guatemala reconheceu os direitos coletivos de propriedade da comunidade sobre suas terras e solicitou que os órgãos governamentais emitissem um título reconhecendo tais direitos. Isso significava que as licenças de mineração e as tentativas de despejo violavam os direitos territoriais da comunidade. A Guatemala, em essência, ignorou essa decisão histórica ao não a cumprir. De fato, apesar da decisão judicial, Agua Caliente ainda não recebeu seu título de propriedade.

Agua Caliente é uma pequena comunidade maia Q'eqchi' localizada no município de El Estor, departamento de Izabal, Guatemala. Agua Caliente é composta por cerca de 76 famílias, e a maioria da população é formada por crianças e idosos. Quase todos os membros da comunidade são monolíngues; ou seja, falam apenas sua língua nativa: o maia Q'eqchi'.

Buscar proteção internacional agora faz parte da luta de Agua Caliente por justiça. Em agosto de 2011, a comunidade de Agua Caliente apresentou uma petição à Comissão Interamericana de Direitos Humanos contra a Guatemala, alegando que suas ações e omissões violavam os direitos territoriais da comunidade, protegidos pela Convenção Americana sobre Direitos Humanos. A Comissão é competente para analisar o caso, pois a Guatemala ratificou o tratado. Devido à natureza específica da petição de Agua Caliente, no ano passado a Comissão concedeu uma autorização especial para processá-la imediatamente, apesar do considerável acúmulo de processos.

A transferência da petição da Comissão para a Guatemala é um desenvolvimento importante no processo e ocorre em um momento crítico. Com a reativação das atividades de mineração, a violência aumentou em El Estor. Líderes Q'eqchi', como Rodrigo Tot, presidente da Comunidade de Água Caliente, têm sido alvo de ameaças e intimidações por parte das forças de segurança da empresa.

“A decisão da Comissão de iniciar a discussão jurídica da nossa petição abrirá caminho para confirmar que as licenças de mineração emitidas pelo Estado e as atividades de mineração da empresa violam os direitos territoriais do povo Q'eqchi', especialmente da minha comunidade”, disse Tot.

“A questão do atraso foi superada e não há como retroceder neste caso. Chegou a hora de começarmos a discutir nossas preocupações jurídicas sobre a ligação entre o Estado e as empresas no projeto de mineração Fenix, sob a perspectiva do direito internacional dos direitos humanos”, afirmou Crippa.