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Incêndios na Amazônia: Proteger os direitos indígenas é um imperativo ambiental global


Não faz muito tempo que o Brasil era apontado como um modelo que demonstrava o potencial de redução do desmatamento por meio do fortalecimento dos direitos territoriais dos povos indígenas. O Brasil possui uma das legislações ambientais mais progressistas do mundo, e a obrigação de reconhecer os direitos dos povos indígenas aos seus territórios ancestrais está consagrada na Constituição de 1988. O Brasil tem sido um exemplo central em muitos estudos que mostram que os proprietários de terras indígenas são os mais bem-sucedidos em resistir às pressões do desmatamento em comparação com outros proprietários de terras, incluindo áreas protegidas de propriedade e gestão governamental.

Hoje, no ritmo em que o Brasil está revogando as proteções aos povos indígenas e ao meio ambiente, corremos o risco de que esses estudos científicos soem como contos de fadas para as futuras gerações. Os compromissos assumidos pelo Brasil no âmbito do Acordo de Paris sobre Mudanças Climáticas, incluindo a promessa de zero desmatamento ilegal na Amazônia até 2030, já parecem uma fantasia inatingível.  

Para sermos justos, os ataques aos povos indígenas do Brasil não começaram com a eleição do presidente Jair Bolsonaro. Terras indígenas são invadidas e saqueadas há muito tempo por madeireiros, garimpeiros e grileiros ilegais, e líderes e ativistas indígenas são assassinados por tentarem impedi-los. Propostas para extinguir os direitos territoriais dos povos indígenas e revogar leis ambientais vêm ganhando força há vários anos, à medida que os setores agrícola, de mineração e de energia se tornam mais poderosos politicamente e argumentam que tais proteções inibem o crescimento econômico.

A situação dos povos indígenas no Brasil vem se deteriorando há anos, mas sob o governo atual, o Brasil está caminhando perigosamente rápido para um ponto de inflexão do qual a floresta amazônica – e os povos indígenas que dependem dela para sobreviver – não conseguirão se recuperar.

As políticas e ações do presidente Bolsonaro para cortar verbas e pessoal destinados à aplicação de leis ambientais e à proteção dos povos indígenas, além de abrir a Amazônia para a agricultura e a indústria extrativista, deram carta branca ao desmatamento desenfreado, às queimadas e às invasões ilegais de terras indígenas. Madeireiros, pecuaristas e grileiros estão devastando a Amazônia impunemente. Segundo o Conselho Indígena Missionário (CIMI), o número de territórios indígenas invadidos, desmatados ou minerados ilegalmente, ou que sofreram outros danos materiais, dobrou nos primeiros nove meses do governo Bolsonaro em comparação com todo o ano de 2018. 

A retórica incendiária anti-indígena de Bolsonaro encorajou os ruralistas – agronegócio, pecuaristas, madeireiros e outros – que estão intensificando seus ataques violentos. No dia da posse de Bolsonaro, um posto de saúde e uma escola em Pankararu foram incendiados e moradores de uma aldeia indígena Guarani Kaiowá foram alvejados. Os confrontos com povos indígenas estão se tornando cada vez mais frequentes e violentos. Os assassinatos e tiroteios contra membros da tribo Guajajara, em novembro e dezembro, são duas das tragédias mais recentes.

No início de dezembro, dois homens armados que viajavam em um carro abriram fogo contra um grupo de indígenas Guajajara na reserva Cana Brava. Dois homens foram assassinados e outros dois ficaram feridos. O grupo retornava à sua aldeia após reivindicar seus direitos em uma reunião com representantes da FUNAI, a agência brasileira para assuntos indígenas, e da Eletronorte, uma empresa de energia elétrica. O ataque ocorreu não muito longe de onde dois membros da equipe de guardiões florestais Guajajara haviam sido emboscados por homens armados um mês antes. Ambos foram baleados; um morreu instantaneamente e o outro ficou ferido, mas conseguiu escapar.

Se há algo de positivo nos incêndios na Amazônia deste ano, é que a defesa dos direitos dos povos indígenas na Amazônia se tornou um imperativo ambiental global. O Centro está trabalhando com líderes e defensores indígenas no Brasil para manter especialistas internacionais e líderes nacionais informados sobre a situação cada vez mais grave e perigosa para os povos indígenas no Brasil. A atenção internacional pode ser uma das melhores, e talvez a única, maneira de fazer o Brasil mudar de rumo. Foi a pressão diplomática que levou Bolsonaro a mudar sua posição e a abordar os incêndios na Amazônia, e trabalharemos para mobilizar esse mesmo tipo de apoio de líderes mundiais e outros atores influentes em defesa dos direitos indígenas.

Estamos apenas começando, mas nossa atuação já está influenciando os relatórios de especialistas internacionais em direitos humanos e de órgãos das Nações Unidas e da Organização dos Estados Americanos. Conseguimos apoio para ações da Câmara dos Representantes dos EUA (H.RES.594) e do Senado (S.RES 337) e ajudamos a construir solidariedade entre as nações indígenas nos Estados Unidos (Resolução nº ABQ-19-022 do Congresso Nacional de Índios Americanos). 

Saber mais:

indianlaw.org/brazil/updates-and-news e indianlaw.org/brazil/international-advocacy