Há quatro anos, em 16 de dezembro de 2010, quando os Estados Unidos emitiram sua declaração de apoio à Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, uniram-se à comunidade internacional para saudar uma nova era dos direitos humanos.
Pela primeira vez na história dos direitos humanos internacionais, os povos indígenas foram reconhecidos como iguais, com direito a todos os direitos garantidos a todos os outros seres humanos. Hoje, comemoramos as batalhas travadas e vencidas por esta e pelas gerações anteriores para assegurar um lugar permanente para os povos indígenas na comunidade mundial.
Afirmando os direitos
Quando o Presidente Obama anunciou o apoio dos Estados Unidos à Declaração da ONU, ele disse: “O que importa muito mais do que palavras são ações que correspondam a essas palavras”. Este foi um ano histórico de ações para os povos indígenas nos Estados Unidos. Em setembro, a primeira Conferência Mundial sobre Povos Indígenas tomou decisões importantes, apoiadas por 100 nações tribais dos Estados Unidos, para reafirmar os direitos da Declaração da ONU e tomar medidas para colocá-los em prática, incluindo:
- Iniciar um processo para criar um órgão permanente no sistema das Nações Unidas que monitore e incentive a implementação da Declaração;
- Considerando as opções para uma decisão da Assembleia Geral que possibilite a participação permanente de governos tribais e outros governos indígenas em reuniões da ONU;
- Intensificar os esforços para acabar com a violência contra as mulheres indígenas; e
- Reconhecer a importância dos lugares sagrados dos povos indígenas.
Os detalhes dessas decisões serão definidos por diversos órgãos da ONU nos próximos 22 meses, incluindo o Conselho de Direitos Humanos. É importante destacar que, pouco antes da Conferência Mundial, os Estados Unidos nomearam Keith Harper como Embaixador dos Estados Unidos junto ao Conselho de Direitos Humanos. Cidadão da Nação Cherokee, o Embaixador Harper desempenhará um papel fundamental na implementação das decisões da Conferência.
Alinhando ações e políticas
Os Estados Unidos parecem estar tomando medidas para alinhar suas leis e políticas à Declaração da ONU. Com vitórias legislativas como a aprovação da Lei de Exclusão do Bem-Estar Geral Tribal e, mais recentemente, a revogação da Seção 910 da Lei de Reautorização da Violência Contra a Mulher de 2013 (VAWA), que excluía as aldeias nativas do Alasca de proteções essenciais, as nações tribais estão avançando significativamente na proteção de suas economias e de seus cidadãos.
Administrativamente, as agências estão revisando suas políticas de consulta às tribos indígenas em consonância com a Ordem Executiva 13175 de 2000 (Consulta e Coordenação com os Governos Tribais Indígenas) e o Memorando Presidencial de 2009 (Consulta às Tribos). Algumas agências fazem referência à Declaração das Nações Unidas em suas políticas revisadas e, pelo menos no que diz respeito a lugares sagrados, diversas agências trabalham em conjunto para promover alguns dos direitos previstos na Declaração.
A responsabilidade importa
Em 2014, os Estados Unidos foram questionados sobre suas obrigações em matéria de direitos humanos como nunca antes. Órgãos de monitoramento de tratados analisaram seu histórico em direitos humanos quanto ao cumprimento do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial e da Convenção contra a Tortura.
Em março, o Comitê de Direitos Humanos expressou preocupação com a taxa de violência doméstica contra mulheres indígenas americanas e nativas do Alasca nos Estados Unidos e recomendou a implementação plena e efetiva da Lei de Violência Contra a Mulher (VAWA), incluindo medidas para auxiliar as nações tribais. Em agosto, o Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial instou os Estados Unidos a intensificarem seus esforços para prevenir e combater a violência contra mulheres indígenas e a garantirem que todos os casos de violência sejam devidamente investigados e processados. Os Estados Unidos também foram avaliados pelo Comitê contra a Tortura em novembro e serão submetidos a uma avaliação mais abrangente em 2015, durante sua segunda Revisão Periódica Universal. Em outubro, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, durante uma audiência de acompanhamento do caso Jessica Lenahan, observou pouco ou nenhum progresso desde suas recomendações iniciais aos Estados Unidos em 2011 e, novamente, instou os Estados Unidos a abordarem as causas legislativas e estruturais da violência contra as mulheres.
Os Estados Unidos, de fato, percorreram um longo caminho no apoio aos direitos indígenas desde que votaram contra a Declaração da ONU em 2007. Contudo, em 2014, órgãos internacionais de tratados de direitos humanos identificaram diversas áreas que necessitam de melhorias. Os povos indígenas sabem que ainda existem muitas lacunas na implementação e estão trabalhando para concretizar certos direitos previstos na Declaração da ONU. Após a Conferência Mundial, alguns líderes indígenas propuseram uma Ordem Executiva solicitando ao Poder Executivo que revise as leis e práticas administrativas federais para garantir sua consistência com a Declaração da ONU. Portanto, muito trabalho ainda precisa ser feito nos próximos anos para alinhar as leis e práticas federais aos padrões internacionais de direitos humanos e para assegurar que as palavras se transformem em ações efetivas que tragam melhorias duradouras para o bem-estar das nações tribais.
*Karla E. General (Mohawk) é advogada do Centro de Recursos Jurídicos Indígenas em Washington, D.C. Seu trabalho apoia a implementação da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas e os esforços do Centro para acabar com a violência contra mulheres indígenas por meio do projeto Mulheres Seguras, Nações Fortes. Karla é formada pela Faculdade de Direito da Universidade de Syracuse e possui mestrado em Sociologia pela Escola Maxwell da mesma universidade. Ela é habilitada a exercer a advocacia em Nova York.